quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Uma esmola…Em nome de Jesus!

O envolvimento da igreja brasileira com o sustento missionário, não só é novo como é precário. O comportamento, de parte dela, é mero descaso para com o próximo, é pura ausência de consciência cidadã, que é o reconhecimento, ao outro, do divino direito à existência.

A dificuldade que o missionário enfrenta, pois, lhe é imposta, para obter o apoio financeiro que precisa para fazer o trabalho, que é de todos, é o começo. Ele é o pedinte e, às vezes, é visto como um reles vagabundo que, não tendo logrado êxito em nada, opta pela ocupação que aceita qualquer um, uma vez que é um trabalho que poucos querem fazer; é como os migrantes desgraçados que, no primeiro mundo, são explorados à exaustão para fazer o sujo trabalho que os nacionais, devido ao seu “status”, não querem mais. Aí, depois de muita oração e petição, logra levantar uma parte de seu sustento que, ao menos, lhe permitirá, ainda que com muito sacrifício, levar a cabo o seu chamado. E lá vai o missionário…

Missionário no campo, e a igreja vivendo a sua vida, as vezes, de problema em problema, de variação em variação: de humor, de espiritualidade, de líder, de teologia… O missionário foi, ficaram os bem sucedidos: os que têm profissão, carreira, segurança previdenciária, os que se esqueceram que não há vitória que não seja presente da graça, que não há segurança senão no amor de Deus, que qualquer estabilidade é fruto daquele que não conhece sequer sombra de variação.

E o missionário no campo, que pode ser longe ou perto, à deriva da boa vontade da comunidade, apostando na fidelidade desta. E, no caso da igreja brasileira, é mesmo uma aposta. Aposta mais incerta do que parece; igrejas há que mudam sua eclesiologia, e simplesmente chamam o missionário de volta porque a visão mudou e não importa mais o que Deus disse ou esteja realizando no campo, o que conta é essa visão nova, que está mais para “visagem” do que para revelação. Outras há que, por qualquer motivo mudam a ênfase missionária e, então, como se fosse apenas a mudança de opções de investimento, mandam avisar ao velho missionário, que não se encaixa nessa nova onda, que não receberá mais nada desta.

E ninguém pergunta ao missionário sobre o transtorno que se abaterá sobre a sua vida a partir dessa mudança de foco. O missionário não conta, sua família muito menos, seu ministério, que se entendia como fruto da vontade de Deus, então, ninguém nem mais lembra. O missionário é, apenas, o pedinte de sempre, vivendo de esmola em esmola, em nome de Jesus.


Ariovaldo Ramos é filósofo e teólogo, além de diretor acadêmico da Faculdade Latino-americana de Teologia Integral, missionário da Sepal e presidente da Visão Mundial. É membro da equipe editorial da Edições Vida Nova.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O que a verdade significa para nós?

Desculpa, mas cansei! Eu estava tentando segurar a onda, esperando pra ver se as coisas mudavam ou talvez eu me tornasse um pouco menos intolerante; mas na verdade nem as coisas mudaram e nem eu me tornei menos intolerante, e sinceramente não sei o que é pior...

Não consigo compreender como nós, igreja evangélica brasileira, chegamos nesse estado tão apático. Aquilo que costumamos dizer que é a "grande razão de nossa existência" nunca sofreu tamanha omissão como nos dias de hoje. Parece que quando se fala de missões transculturais estamos falando de um daqueles contos tipo "Alice no país das maravilhas", ou então acho que confundimos a grande comissão de Cristo para Sua igreja com mais umas dessas "teologias enlatadas" que copiamos dos nossos irmãos do norte. Sinceramente não sei, mas esse evangelho maltrapilho que temos vivido não é o mesmo que foi exemplificado pelo Mestre quando esteve entre nós. Não foi esse evangelho capitalista e egocêntrico que Ele nos ensinou.

Eu fico tentando entender - e confesso minha frustração em não conseguir - como nos tornamos uma igreja tão hipócrita e omissa. Nunca o movimento missionário brasileiro esteve tão mal das pernas e tão abandonado. Nunca tivemos tantos recursos disponíveis e tanta falta de investimento em obreiros e projetos.

Em uma pesquisa feita pela Missão Horizontes, David Botelho chegou a conclusão que os crentes brasileiros gastam mais com coca-cola do que com missões; mais com animais de estimação do que com missões; mais com chicletes e balas do que com aquilo que dizem ser a razão da igreja existir. Enquanto isso, pastores celebram cultos em "ação de graças" pela reforma dos banheiros da igreja que agora são de granito e que custaram 50 mil reais. Líderes "guiados pelo espírito" lançam o projeto de mais uma mega-catedral para 10 mil pessoas sentadas confortavelmente. Tudo isso em nome de Deus!

Ao contrário do que muitos líderes carismáticos dizem por aí, o Brasil não está vivendo um grande avivamento; não existe uma nuvem de glória (ou Shekiná se você preferir) sobre o Brasil! Em toda a história dos grandes avivamentos ocorridos no mundo, houve uma marca em comum: O avanço do movimento missionário; o crescimento do número de missionários enviados aos campos e pessoas comprometidas com seus sustentos. Porém, ao invés disso, nunca estivemos tão voltados para nós mesmos. Nunca estivemos tão presos dentro das nossas quatro paredes e cada vez investindo mais nossos recursos em coisas desta terra. Temos investido o dinheiro de nossas igrejas em tijolos, imóveis, veículos e mais um montão de coisas que até são necessárias, mas que não deveriam ser nossas prioridades.

É inadimissível uma igreja tão rica como a brasileira ser tão omissa no sustento dos seus missionários nos campos. É interessante que se tem dinheiro para tudo em nossas igrejas: instalar ar-condicionados, comprar veículos, reformar salas, trocar a caixa de correspondências por uma maior, porém quando se fala em levantar recursos para o missionário vem aquele mesmo papo de sempre: "Você sabe como é né, nós até queríamos fazer mais por você, mas é que as coisas andam tão difíceis... mas você pode contar com nossas orações!"



A igreja brasileira está doente! Está trocando as coisas eternas por coisas terrenas e com isso cada vez mais se distanciando do seu propósito de fazer com que Cristo seja conhecido em todas as raças, povos, tribos, línguas e nações. O grande problema é que estamos satisfeitos com essa situação desde que nossos desejos continuem sendo saciados e nossas necessidades supridas como se estivessemos em uma loja de conveniências.

Vivemos dias de uma geração de adoradores "estravagantes e apaixonados" mas que não obedecem ao Deus que adoram, se esquecendo que Ele também deseja ser adorado por todos os povos da terra; Levitas que adoram ser o centro das atenções mas que não estão dispostos viver a vida de renúncia proposta pelo evangelho; dias de um monte de profetas para anunciarem a prosperidade, mas que não confrontam o pecado da omissão na obra missionária. Esse é o retrato da igreja brasileira.

Lembro-me de uma época na história bíblica que Israel vivia uma situação parecida com a nossa: muita adoração, programações e mais programações, mais adoração, festas e mais um pouquinho de adoração. Deus então levanta um cara chamado Amós e diz para o Seu povo: "Chega! Eu odeio e desprezo a adoração que vocês têm me oferecido; mesmo que vocês me ofereçam suas melhores canções e façam para mim suas melhores festas eu não aceitarei! O que eu quero de vocês é retidão!" Como podemos nos enganar achando que estamos vivendo um grande avivamento se não nos comprometemos com aquilo que Deus está inteiramente comprometido? Jesus disse: "Como vocês podem dizer que me amam se não fazem a minha vontade?"

A vontade de Deus é que Seu reino seja pregado a todas as nações; é que tenhamos um compromisso de orar pela salvação dos povos não alcançados e de sustentar a obra missionária com os recursos que Ele tem nos dado. Nunca seremos adoradores verdadeiros enquanto não nos envolvermos com aquilo que faz o coração de Deus bater! Não continuar insistindo em viver essa teologia "Hollywoodiana" que faz com que estejamos voltados somente para nossas necessidades, nos esquecendo daquilo que realmente importa para Deus: Alcançar todos que ainda não ouviram falar Dele!

Que o nosso coração se rompa com aquilo que rompe o coração de Deus!

Leonardo Botelho

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sal e Luz

Mateus 5:13-16

Jesus falava sobre Sal e Luz em algum ponto perto do Mar da Galiléia. Menos de 160 km ao sul estava o rio Jordão, que corria para um outro mar, não tão longe dali. Este outro mar, de tão salgado é chamado de mar morto. E do lado ocidental vivia ali uma comunidade monástica do Mar Morto, devotados a reproduzirem e guardarem manuscritos bíblicos. Eram conhecidos como Essênios, mas se auto intitulavam "Os filhos da luz". Entretanto não tomavam providência para que a Luz brilhasse pois viviam reclusos da sociedade, isolados. Nestas metáforas, Sal e Luz, algumas conclusões estavam obviamente presentes na mente de Jesus, e eu gostaria que pudéssemos acompanhá-las.

1. Jesus afirmava com isto que o mundo não possuia força própria para se preservar. Afirma que a tendência do mundo era de autofagia, autodestruição. O mundo é evidentemente escuro, sem luz própria.

Ironicamente Paris, chamada a Cidade Das Luzes possui hoje um dos mais altos índices de desfacelamento da família e de suicídio entre adolescentes. Não Tem Luz Própria.

O mundo também possui uma rápida tendência para a decomposição. Ouvimos isto nas ruas quando todos a uma só voz afirmam que "ontem havia menos violência, menos corrupção, menos maldade". A estrutura mundial patrocinadora do pecado possui em seu DNA uma tendência para se decompor. Por isto, em Mateus 5:8 Jesus, preparando a Sua Igreja para viver no mundo diz: "Bem aventurados os limpos de coração porque verão a Deus".

"Limpo" aqui não se refere a resistência contra a carne, mas sim contra o mundo.

"Katharoi" – Limpos – significa literalmente "sem mistura", "sem resíduos", e é usado para a água tirada da fonte cristalina. Aqui temos um pressuposto importante. A Igreja Jamais conseguirá ser Sal da Terra e Luz do Mundo (Cumprir a Sua Missão) - se estiver misturada; - se passar a se parecer com o mundo; - se passarmos a viver pelos valores do mundo e não do Reino.

C.S.Lewis nos diz que "não nascemos para a felicidade; nascemos para amar". Em outras palavras, a Igreja não foi chamada essencialmente para ser feliz, mas para fazer Deus feliz. Falando sobre a pregação do evangelho, Paulo afirmou que "sobre mim pesa esta obrigação". Ou seja, devemos fazer a vontade de Deus por alegria, por prazer, por privilégio. Mas se estes um dia faltarem, devemos fazê-lo por Obrigação. Somos chamados a obediência ao Senhor perante um mundo autofágico, com natural tendência para a decomposição.

2. Jesus também afirma, de maneira categórica, que "nós", a Igreja, somos o Sal da terra e Luz do mundo. Parece-nos obvio esta expressão porque já a ouvimos desde nossa infância. Mas Jesus está aqui demarcando o campo de poder da Igreja. Vejamos. Ele estava longe das cidades, dos templos, das sinagogas, das escolas, das estruturas de poder econômico, político e social. Portanto Ele estava deixando bem claro que nossas estruturas não são o Sal da terra e Luz do mundo; Nossas finanças não são o Sal da terra e Luz do mundo; Nossos templos, nossos métodos, estratégias litúrgicas, influência na mídia, não são o Sal da Terra e Luz do mundo. Os homens, crentes, é que o são. M. Bounds nos diz que: "Constantemente nos esforçamos por criar novos métodos, novos planos, para garantir eficiência na Igreja. Nos esquecemos que o homem é o método de Deus. A Igreja procura melhores métodos. Deus procura homens melhores." Mundo.

Há no mundo hoje 2227 povos não alcançados; ainda 4.000 povos sem uma igreja forte o suficiente para alcançar a própria etnia. No Norte da África e Oriente Médio, há bolsões com até 1 equipe missionária para cada 3 milhões de habitantes. Há mais de 3.000 línguas sem a Palavra de Deus traduzida em seus idiomas e 1 bilhão de pessoas que não sabem ler ou escrever. Não leriam a Palavra mesmo se a tivessem em suas mãos.

Temos em nosso país 103 tribos indígenas sem presença missionária. E há guetos sociais bem perto de nós, a espera de alguém que se levante e seja ali Sal e Luz.

Charles Peace foi um assassino, condenado a morte em 1902 na Inglaterra. Seria enforcado. Ao caminhar para o cadafalso um pastor anglicano o acompanhava citando-lhe partes da Palavra de Deus. No meio do caminho Charles Peace parou e perguntou ao pastor: - "O senhor crê no que está falando?" - "Sem dúvida" – respondeu o ministro. Ao que Charles Peace completou: "Não, o senhor não crê. Se eu cresse no que o senhor afirma crer, correria ou mesmo rastejaria por toda a Inglaterra e pelos campos, ainda que estivessem cheios de cacos de vidro, para falar a homens e mulheres a respeito da minha fé. Não o senhor não crê". Deus usa corações apaixonados por Jesus. Homens como você e eu.

3. Jesus, em seu sermão, nos afirma que o Sal que perde o sabor é imprestável; a Luz escondida é inútil. Teologicamente nossa Identidade e Missão são aspectos inseparáveis da vida Cristã. Empiricamente conseguimos divorciar a nossa Identidade cristã do Serviço cristão. Por isto Ghandi afirmou que "crê no nosso Cristo mas não no nosso Cristianismo". Por isto Stott afirmou que "o Cristianismo se parece com torres inacabadas" Porque nos tornamos imprestáveis ou inúteis? Há muitas respostas viáveis. Uma delas é nossa compreensão da Missão. Cremos que a Missão é realizada pela nossa força e capacidade humana tão somente. E sempre a atribuímos à aqueles pastores, missionários e obreiros treinados para o Serviço. Assim elitizamos a Missão.

Mas na visão de Cristo a Obra do Senhor é realizada pela Graça de Deus e não pela capacidade humana. Se somos Sal da terra é tão somente pela Graça de Deus. Se somos Luz do mundo é tão somente pela Graça de Deus. Gideon Ousley foi um pregador pioneiro no Metodismo nascente. Homem simples, trabalhava no campo descascando o milho e lançando a palha fora. Sem a retórica de seus antecessores ele se achava incapaz para ministério.

Gideon conta que em uma oração ouviu a voz de Deus que lhe dizia:

- "Pregue o Evangelho" ao que ele respondia: "Não sou capaz"!
O Senhor continuou: - "Gideon, você conhece a enfermidade?" (sim Senhor)

- "Gideon, você conhece o remédio?" (sim Senhor) - "Então vá e fale da enfermidade e do remédio. O resto é palha"!


Ronaldo Lidório é casado com Rossana e missionário das missões AMEM (A Missão de Evangelização Mundial) e APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) e atualmente trabalhando no Amazonas. É também antropólogo envolvido com o desenvolvimento sustentável em projetos sociais.

Fonte: www.ronaldo.lidorio.com.br

domingo, 4 de outubro de 2009

A resistência de Jó frente à dor e ao sofrimento


Jó é citado apenas duas vezes em toda a Escritura (Ez 14.12-23; Tg 5.11), fora do livro que leva o seu nome. Na primeira passagem, salienta-se a retidão e o poder de intercessão de Jó, que é colocado ao lado de outros homens especiais (Noé e Daniel). Na segunda, fala-se de sua capacidade de lidar com o sofrimento. Algumas versões chamam atenção para a sua paciência (RA, TEB, NTLH, BJ), outras para a sua constância (CNBB, EP) ou perseverança (NVI). A paráfrase Bíblia Viva prefere mencionar a sua confiança em Deus. Apenas a Bíblia do Peregrino acha apropriado traduzir a palavra original como resistência: “Ouvistes falar como Jó resistiu, e conheceis o desfecho que Deus lhe proporcionou, pois o Senhor é compassivo e piedoso”.
Logo no início do livro, Jó é apresentado como homem extremamente correto, inculpável, íntegro, irrepreensível, justo, precavido (“evitava fazer o mal”), reto (“andava na linha”) e temente a Deus (Jó 1.1). Era um homem especial, fora de série, um exemplo impressionante em sua época e em nosso tempo. Duas vezes o próprio Deus afirma que Jó era sem igual: “No mundo inteiro não há ninguém tão bom e honesto como ele” (Jó 1.8; 2.3) Em geral, o que os cristãos sabem a respeito de Jó é apenas o que está no prólogo (os dois primeiros capítulos) e no epílogo (os 12 últimos versos do último capítulo). Passa-se por cima de toda a parte poética do livro, que valoriza tremendamente o caráter de Jó.
Já o leitor que examina o miolo do livro fica perplexo com a incrível resistência do homem da terra de Uz frente a toda sorte de sofrimento, como se pode ver a seguir. Jó era irrepreensível... Apesar das desventuras Jó não era sem igual só no terreno ético. No que diz respeito à prosperidade, ele era aprovado e bem-sucedido em tudo. Jó tinha saúde, família, riquezas e muita gente a seu serviço. Era “o homem mais rico do oriente”. Possuía 11.500 cabeças de gado. De uma hora para outra, perdeu tudo. Em um mesmo dia, Jó recebeu quatro más notícias seguidas, uma imediatamente após a outra.
As perdas foram provocadas pelos povos vizinhos (os sabeus e os caldeus) e por desastres naturais (raios caídos do céu e uma terrível ventania vinda do deserto). Foi assim que Jó perdeu...
Todo o gado (7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 1.000 bois e 500 jumentos); Todos os empregados (administradores, agricultores, boiadeiros, carreiros, cortadores de lã, guardas das torres de vigia, plantadores de capim, roçadores de pastos, tiradores de leite, tratadores de animais, vendedores de gado etc). Só escaparam aqueles que vieram trazer essas notícias.
Todos os dez filhos (três mulheres e sete homens). Estavam todos comendo e bebendo na casa do irmão mais velho, quando o furacão atingiu a casa e a derrubou sobre eles. No dia seguinte, havia dez caixões de defuntos para Jó enterrar. Apesar da doença Pouco depois da perda de quase todos os bens e de todos os filhos, Jó perdeu a saúde, o mais precioso bem que alguém pode possuir.
A doença era tão grave que o obrigava a pensar na morte. Vários diagnósticos têm sido apresentados: a doença poderia ser dermatose escamosa, elefantíase, eczema crônico, eritema, lepra, melanoma, pênfigo foliáceo, psoríase queratose, úlceras malignas, varíola. Ele portava “feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça”, raspava-se com um caco de louça e ficou tão desfigurado que seus amigos não puderam reconhecê-lo e começaram a chorar em alta voz diante daquele quadro aterrador (2.12-13).
O mal de Jó era uma agressão à visão e ao olfato de todos os que o cercavam. Vale a pena ler o que o próprio Jó fala a respeito:
“Que esperança posso ter, se já não tenho forças? Como posso ter paciência, se não tenho futuro?” (6.11).
“Quando me deito fico pensando: quanto vai demorar para eu me levantar? A noite se arrasta, e eu fico virando na cama até o amanhecer. Meu corpo está coberto de vermes e cascas de ferida, minha pele está rachada e vertendo pus. [...] É melhor ser estrangulado e morrer do que sofrer assim” (7.4-5,15).
“Meus dias correm mais velozes que um atleta; eles voam sem um vislumbre de alegria. Passam [ligeiros] como barcos de papiro, como águias que mergulham sobre as presas” (9.25).
“Tornei-me objeto de riso para os meus amigos, logo eu, que clamava a Deus e ele me respondia, eu, íntegro e irrepreensível, um mero objeto de riso!” (12.4).
“Minha magreza [...] depõe contra mim”(16.8);
“O meu corpo não passa de uma sombra” (17.7);
“Não passo de pele e ossos” (19.20).
“O único lar pelo qual espero é a sepultura” (17.13);
“Quem poderá ver alguma esperança para mim?” (17.15).
“Minha mulher acha repugnante o meu hálito; meus próprios irmãos têm nojo de mim” (19.17).
“Agora esvai-se a minha vida; estou preso a dias de sofrimento. A noite penetra os meus ossos; minhas dores me corroem sem cessar” (30.16-17).
“Minha pele escurece e cai; meu corpo queima de febre. Minha harpa está afinada para cantos fúnebres, e minha flauta para o som de pranto” (30.30-31).
Apesar da esposa:
A companheira de Jó e mãe de seus filhos mortos não teve sabedoria suficiente para enfrentar o sofrimento da família:
1) Ela foi incapaz de suportar o quadro doentio do marido. Jó pessoalmente descreve a situação: “Minha própria esposa não chega perto de mim por causa do mau cheiro que sai de minha boca quando falo” (19.17, BV). O cheiro repugnante vinha também das feridas abertas.
2) Ela foi incapaz de manter o relacionamento anterior com Deus. A esposa de Jó rompeu com o Senhor e aconselhou o marido a fazer o mesmo: “Você ainda vai tentar ser muito religioso, mesmo depois de tudo o que Deus nos fez? O melhor que você tem a fazer é amaldiçoar a Deus e morrer!” Jó viu-se na obrigação de opor-se e resistir à própria esposa: “O que você está falando é loucura completa. Já recebemos tantas coisas boas de Deus, porque não recebemos também o sofrimento e a dor?” (2.9-10, BV.)
3) Ela foi incapaz de acompanhar o marido. A dura verdade é que a esposa de Jó passou para o lado oposto: aliou-se a Satanás, tornou-se porta-voz dele, fez-se advogada do diabo. Pois o único propósito de Satanás era levar Jó a amaldiçoar a Deus (1.11; 2.5). Apesar da solidão Antes de suas desventuras, Jó tinha nome, tinha dinheiro, tinha poder. Era cercado de pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros, com os quais repartia seus bens. Era cercado de parentes, amigos e vizinhos, próximos e distantes, com os quais se alegrava. Afinal, muitos são os que amam o rico (Pv 14.20). Mas, depois de suas desgraças, todos foram se retirando e deixaram Jó sozinho. Ele se queixa amargamente disso: “[Deus] afastou de mim os meus irmãos; até os meus conhecidos estão longe de mim. Os meus parentes me abandonaram e os meus amigos esqueceram-se de mim. Os meus hóspedes e as minhas servas consideram-me estrangeiro; vêem-me como um estranho. Chamo o meu servo, mas ele não me responde, ainda que lhe implore pessoalmente. Minha mulher acha repugnante o meu hálito; meus próprios irmãos têm nojo de mim. Até os meninos zombam de mim e dão risadas quando apareço. Todos os meus amigos chegados me detestam; aqueles a quem amo voltaram-se contra mim” (19.13-20).
Apesar do Diabo:
O livro da Bíblia que menciona maior número de vezes o nome de Satanás é o de Jó. São ao todo quatorze citações, que aparecem apenas nos dois primeiros capítulos, o equivalente a pouco mais de 25% de todas as ocorrências. Quanto a toda a Escritura, apenas em Apocalipse Satanás é tão devastador como em Jó. Por duas vezes, Deus chama a atenção de Satanás para a integridade de Jó: “Reparou em meu servo Jó?” (1.8; 2.3). Em resposta, Satanás duas vezes relacionou a integridade de Jó com a prodigalidade de Deus (1.10-11; 2.4).
Então, também por duas vezes, Deus suspendeu parte de sua proteção e deixou Jó ao alcance de Satanás (1.12; 2.6). Na primeira vez, Satanás toma todos os seus bens e todos os seus filhos (1.13-19). Na segunda, toma toda a sua saúde (2.7-8). Depois de todos os estragos, Satanás sai de cena e não mais é citado. O Satanás do livro de Jó é o mesmo que mais tarde vai tentar o próprio Jesus Cristo (Mt 4.1-11), peneirar Pedro (Lc 22.31), entrar no coração de Judas (Jo 13.27), encher o coração de Ananias (At 5.2), atazanar Paulo com o espinho na carne (2 Co 12.7) e impedir Paulo de visitar os tessalonicenses (1 Ts 2.18). Satanás é o tentador, o enganador, o acusador, o maligno, o homicida, o ladrão de semente (Mt 13.19), o semeador de joio (Mt 13.39), o pai da mentira, o leão que ruge e especialmente “o príncipe da potestade do ar” (Ef 2.2), isto é, “aquele que se interpõe entre o céu e a terra” (na Tradução Ecumênica da Bíblia).
Por algum tempo, mas sem perder a proteção de Deus, Jó foi contundentemente machucado por Satanás! Apesar das discurseiras de seus amigos Os três amigos de Jó — Elifaz, Bildade e Zofar — “souberam de todos os males [desgraças, calamidades, em outras versões] que o haviam atingido, saíram, cada um da sua região. Combinaram encontrar-se para, juntos, irem mostrar solidariedade a Jó e consolá-lo” (2.11). Depois da mudez provocada pelo impacto da aparência de Jó, os três homens começaram a falar. Seus oito (talvez nove) discursos ocupam pelo menos nove capítulos do livro de Jó. São peças admiráveis quanto à poesia, à beleza e à religiosidade. Os três são monoteístas como o amigo e o nome de Deus aparece 39 vezes em seus discursos (incluindo os nomes Criador e Todo-poderoso).
Mas revelam incrível falta de sabedoria, falta de psicologia e falta de misericórdia. Eram inoportunas para aquele momento e para a pessoa com o qual falavam. Valendo-se de uma filosofia errada e de uma teologia errada, Elifaz, Bildade e Zofar causaram enorme mal-estar a Jó e cometeram imperdoáveis injustiças contra ele. Talvez Jó tenha sofrido mais com os discursos de seus amigos do que com a bancarrota financeira, a morte dos filhos e a própria doença. Isso pode ser visto nos seguintes desabafos: “Vocês [...] me difamam com mentiras; todos vocês são médicos que de nada valem! Se tão-somente ficassem calados, mostrariam sabedoria” (13.5). “Até quando vocês continuarão a atormentar-me, e esmagar-me com palavras? Vocês já me repreenderam dez vezes; não se envergonham de agredir-me” (19.2-3). “Suportem-me enquanto eu estiver falando; depois que eu falar poderão zombar de mim” (21.3). Os amigos de Jó atentaram contra a sua tranqüilidade, alvoroçaram a sua consciência e roubaram a sua paz com Deus. Desempenharam o mesmo serviço de Satanás, aquele que se põe na presença de Deus para acusar dia e noite, não os ímpios, mas os justos (Ap 12.10). Quando o pano se levanta e toda a verdade vem à tona, o Senhor repreende severamente os acusadores de Jó: “Estou indignado com você [Elifaz] e com os seus dois amigos [Bildade e Zofar], pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó” (42.7). Para não serem punidos por Deus “pela loucura que cometeram”, os três amigos deveriam comparecer diante de Jó, oferecer holocaustos em favor deles mesmos e se beneficiarem da intercessão de Jó (42.8-9).
Apesar da arenga de Eliú:
Eliú é o quarto personagem do livro de Jó. Era mais jovem que Elifaz, Bildade e Zofar. Foi o último a falar. Seu discurso ocupa seis capítulos seguidos e ele sozinho cita o nome de Deus 39 vezes. Embora mais cortês e mais próximo da verdade quanto à visão do sofrimento, Eliú também não poupou o homem da terra de Uz: “Neste mundo não há ninguém como Jó, para quem é tão fácil zombar de Deus como beber um copo de água. Ele anda com homens maus e se ajunta com gente que não presta” (34.7, NTLH). “Jó é pecador, um pecador rebelde. Na nossa presença, zomba de Deus e não pára de falar contra ele” (34.37, NTLH). “Jó, você não tem o direito de dizer para Deus que você é inocente” (35.2, NTLH). “São os outros que sofrem por causa dos pecados que você comete” (35.8, NTLH). “Não adianta nada continuar o seu discurso; você fala muito, porém não sabe o que está dizendo” (35.16, NTLH). “Você está sofrendo por causa da sua maldade; cuidado, não se volte para ela!” (35.21, NTLH.) Com o discurso de Eliú fechou-se o cerco contra Jó. Já não havia ninguém a favor do homem da terra de Uz. Todos declararam impiedosamente e à uma voz que Jó era o único responsável pelo sofrimento dele: estava colhendo o que plantara (Gl 6.7-8).
Apesar de Deus:
Ninguém tinha conhecimento do que estava acontecendo fora do palco, nos bastidores do inferno. Nem a principal vítima, nem a sua mulher, nem os demais parentes, nem a vizinhança, nem os conhecidos, nem seus antigos hóspedes, nem seus servos e servas, nem os rapazotes que brincavam displicentemente nas ruas e praças, nem os miseráveis que Jó havia acolhido em tempo de fartura. Menos ainda os acadêmicos presunçosos que vieram de Temã, de Suá e de Naamate, e o jovem Eliú, igualmente presunçoso. Ninguém sabia nada do profundo apreço de Deus por Jó, das duas provocações de Deus a Satanás (“Reparou em meu servo Jó?”), das alegações de Satanás de que Jó era reto por uma questão de interesse particular, das duas progressivas diminuições do tamanho da cerca que protegia Jó e da poderosa e sobrenatural investida de Satanás contra as posses, contra a família e contra a saúde de Jó.
O mais ignorante disso tudo seria o próprio Jó. Por essa razão, mesmo sem entender nada do que estava acontecendo, e na certeza de que nada está fora do controle de Deus, Jó atribuía tudo ao Senhor, como se pode ver nas declarações assinadas por ele: “Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu [tudo o que eu tinha], o Senhor tirou; louvado seja o seu nome!” (1.21, NTLH.) “Sem dúvida, ó Deus, tu me esgotaste as forças; deste fim a toda a minha família. Tu me deixaste deprimido. [...] Deus, em sua ira, ataca-me e faz-me em pedaços, e range os dentes contra mim” (16.7-9). “Deus fez-me cair nas mãos dos ímpios e atirou-me nas garras dos maus. Eu estava tranqüilo, mas ele me arrebentou; agarrou-me pelo pescoço e esmagou-me. Fez de mim o seu alvo; seus flecheiros me cercam. Ele traspassou sem dó os meus rins e derramou na terra a minha bílis. Lança-se sobre mim uma e outra vez; ataca-me como um guerreiro” (16.11-14). “Foi Deus que me tratou mal e me envolveu em sua rede. [...] Ele bloqueou o meu caminho, e não consigo passar; cobriu de trevas as minhas veredas. Despiu-me da minha honra e tirou a coroa de minha cabeça.
Ele me arrasa por todos os lados enquanto eu não me vou; desarraiga a minha esperança como se arranca uma planta. Sua ira acendeu-se contra mim; ele me vê como inimigo. Suas tropas avançam poderosamente; cercam-me e acampam ao redor da minha tenda” (19.6-12). “Misericórdia, meus amigos! Misericórdia! Pois a mão de Deus me feriu” (19.21). Na verdade, Deus não fez nada contra Jó. Porém, permitiu que Satanás fizesse tudo isso e ainda se servisse de sua própria esposa e de seus próprios amigos. Todavia, nenhum desses estranhos acontecimentos tirou o patriarca do caminho reto. É extraordinária sua resistência às circunstâncias esmagadoramente contrárias! Apesar do próprio Jó Jó era de carne e osso como qualquer outra criatura. Era homem e não Deus, era homem e não semideus, era homem e não super-homem. Assim como Jesus, em sua forma humana, era igual a qualquer de nós e tinha as mesmas necessidades básicas, como fome, sede e sono, e “passou por todo tipo de tentação” (Hb 4.15).
Jó era cercado de limitações e fraquezas. O homem da terra de Uz era irrepreensível e inculpável, mas era santo no sentido restrito. Ele nasceu pecador e era pecador. O pecado habitava nele, estava dentro dele e atuava em seus membros, como aconteceu com Paulo (Rm 7.14-25) e como acontece com qualquer outro mortal. As dores provocadas pela perda de todos os bens, pela morte de todos os filhos e pela doença mau cheirosa e sem cura, não foram fictícias. Assim como as dores dos cravos que atravessaram os pés e as mãos de Jesus não foram teatrais. Jó sofreu com o mau conselho da esposa e com a incompreensão, a falta de tato, o fundamentalismo religioso, as críticas, as calúnias, as denúncias, a falta de compaixão e a insistência de Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú. Nada disso passou despercebido pelo sofrido Jó. Ele chorava — “Meu rosto está rubro de tanto eu chorar” (16.16).
Ele ficava perdido, confuso, desesperado, deprimido. Jó fazia reclamações, lamentações, desabafos (não há outro livro com tantos e sérios desabafos como o de Jó). Ele tinha crises de fé. Todavia, o homem da terra de Uz sobreviveu a tudo isso e fazia sua pública profissão de fé: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fim se levantará sobre a terra” (19.25).
Jó é um dos mais notáveis exemplos de resistência frente às vicissitudes pelas quais o ser humano pode passar!

sábado, 3 de outubro de 2009

Sinais do reino de Deus nas expressões de arte e louvor


O povo de Deus que se expressa através do louvor e música em tantos cantos deste país está perdendo seu senso de missão. É interessante notar isto ao olharmos as manifestações artísticas que vemos hoje no meio evangélico, manifestações cada vez mais entrincheiradas dentro dos templos ou ambientes de encontros chamados de adoração. E quando saímos de nossos guetos, levamos a arte, a música e o louvor numa linguagem burra, desconexa e não contextualizada.Insistimos em sermos lâmpadas dentro de uma caixa de lâmpadas e em ser sal dentro do saleiro, perdendo portanto, a finalidade de sua razão de existência, isto é, iluminar no meio da escuridão e salgar impedindo que a carne se apodreça tão rapidamente e que ganhe sabor.

Desejamos viver protegidos, sem desafios que exijam de nós aprendizado, disciplina e preparo. Adoradores e artistas perdem e desprezam a noção de usarmos a vida, a música e todo o tipo de expressão artística para manifestarmos e testemunharmos do evangelho que abraçamos. Por causa de uma teologia distorcida e pouco bíblica, insistimos em ensinar e orientar que os artistas devem “largar o mundo” e não podem mais atuar fora dos limites eclesiásticos e nem atuar profissionalmente, contrariando o ensino de Jesus de sermos testemunhas e presentes no mundo como testemunhas do amor e presença de Deus..

Alguns artistas chamados cristãos cantam letras mais vez mais superficiais, camufladas, que mais “escondem” o conteúdo da Palavra de Deus, músicas e letras de conteúdo o mais dúbio possível, para que possam tocar em rádios seculares. Ainda pior, usarmos músicas populares conhecidas, e colocarmos versões de letra com linguajar e conteúdo “crentês” (inclusive de filmes como Titanic...). Manifestação artística medíocre, pobre, superficial, mal feita. E vamos assistindo a arte “naufragando” num mar de ignorância e falso senso de santidade.

Vivi recentemene uma experiência onde percebi claramente esta tensão, quando numa mesma cidade e num mesmo dia, estava acontecendo um encontro de louvor num espaço gospel, onde jovens estavam dançando e pulando ao som dos “mantras” atuais (músicas repetitivas de 4 acordes e de longa duração). O evento servia apenas como entretenimento ou mais uma atração, inclusive quando o “som” parava os jovens não ficavam nem para a ministração da Palavra de Deus.

E em outro local uma banda de cristãos faziam a abertura de um show de rock (hardcore), com letras explícitas do evangelho de Jesus. Os jovens não cristãos que chegavam ali, preparados para uma noite de piração e bebedeira, ouviam a Palavra de Deus num testemunho destemido daqueles rapazes.

Ao meu lado, um outro jovem músico cristão, sincero, e que foi convidado para estar ali, que reclamava por estar assistindo aquele trabalho já que “havia negado o mundo” e achava que não deveria estar ali; percebi nele um jovem soldado de Cristo que foi desmobilizado por aqueles que, com preconceitos e uma mentalidade religiosa retrógada e de falsa santidade, o ensinaram e discipularam. Meu coração se encheu de alegria por ver aquela manifestação de poder e da presença do reino de Deus ali e na vida daquele conjunto que abriu o evento.

Perguntei-me se Jesus estaria no encontro de louvor ou ali num ambiente tão desfavorável e aparententemente antagônico à mensagem do evangelho musicada? Imagino que o Senhor iria priorizar estar presente entre incrédulos, com um coração cheio de compaixão e misericórdia!

Lembrei-me de Janires, Comunidade S-8, Desafio Jovem, Jocum, Mocidade Para Cristo, Edson e Tita Lobo, Wanda Sá, Abraham Laboriel, Rique Pantoja, Sal da Terra. Daniel Maia, artistas e ministérios que fizeram nascer trabalhos criativos de testemunho através da música, teatro, dança e outras manifestações da arte e da arte cristã.

Ouvindo meu bom amigo e músico cristão Carlinhos Veiga nestes dias em Vitória num encontro de criatividade, cantando com sua viola e pregando a palavra do Mestre, e meu irmão Shibas de BH dançando, fiquei pensando em quanto nos acovardamos em assumir o testemunho cristão restaurando a cultura e as artes em todas as suas manifestações e quanto temos perdido de tempo e oportunidades em nosso amado Brasil.

E continuamos perdendo músicos e artistas competentes, que vão sendo expelidos, abandonados, por cometerem o “incômodo” de pedir aos pastores e artistas que se preparem e façam a coisa com excelência e disciplina, que sejam criativos e ousados, e que não abracem simplesmente modelos importados estéticos e sonoros de arte. Não podemos perder o senso de missão no que somos e fazemos!!! É bom ver o reino se espalhando, sendo plantado no coração dos homens em todas as culturas, de um modo constante e misterioso, mas que cresce mais e mais a cada dia.

Que sejamos cristãos e artistas da ekklesia, comunidade dos santos, verdadeiramente “chamados para fora”, presença e testemunho no meio de uma geração perversa, corrupta e errante. Nota: A pintura que ilustra esse artigo é do pintor chinês He Qi, professor no Nanjing Union Theological Seminary. Membro da associação de arte da China e do conselho da associação de arte cristã.


Nelson Bomilcaré pastor, compositor e músico, e tem trabalhado na adoração e música cristã nos últimos 30 anos, ministrando e pastoreando músicos, tendo produzido inúmeros cantores e grupos no Brasil. Participou de Vencedores, Semente, IBMorumbi. É membro da Associação de Músicos Cristãos (AMC) do Brasil.

Comissão e omissão


Todos reconhecemos o que chamamos de “a grande comissão”: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura.” (Mc 16.15 ) E, de uma maneira concreta, ainda que não excelente, como o desejado, a Igreja tem cumprido a missão de levar, a cada pessoa, o conhecimento da boa notícia de que o Filho de Deus veio à Terra para buscar o que se havia perdido. O que não temos percebido é que essa comissão tem três frentes. A primeira frente é a que já foi mencionada, o anúncio ao indivíduo, na qual nos temos saído bem, apesar de deixarmos a desejar no quesito excelência.


A segunda frente é a da implicação nacional: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mt28.19,20) Nessa dimensão o que se considera é a influência a ser exercida sobre as nações, de modo a adequá-las às demandas do Cristo. Alguns grupos intentaram-no na história, porém, foram tentativas que, ainda que, em certa medida, produzissem efeito, tiveram um caráter extemporâneo. Mesmo a tentativa da igreja de roma, principalmente, na idade média.


Entre outros, tivemos os puritanos, na Inglaterra; os presbiterianos, na Escócia; os calvinistas, em Genebra, na Suiça; e, mais recentemente, na Holanda, com Abraham Kuipper. Causaram impacto, porém, foram episódicas, algumas, inclusive, com a intenção de implantar o Reino, ao invés de sinalizá-lo, como está proposto na Escritura, uma vez que a implantação fica por conta do Senhor em sua volta. Resta, entretanto, uma tarefa, a de influenciar as nações, de modo que o máximo possível do Reino nelas apareça, pois, não podemos nos esquecer de que há um juízo para as nações: Mt 25.32-46 – onde Jesus avaliará cada nação pela forma como os vitimados pelo sistema foram tratados.


Enfim, se houve ou não justiça social. A terceira frente é a da provocação de adoração por meio das boas obras: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5.16) Jesus ordena que manifestemos a luminosidade com a qual, ele mesmo, nos dotou. Essa luminosidade aparece na forma de boas obras, que têm a função de provocar nos beneficiados a glorificação do nome do Pai. Essas boas obras têm a ver com as nossas características que, necessariamente, nos levam a fazer o bem: As qualidades expostas nas bem-aventuranças.


Somos humildes de espírito, gente que se sabe dependente da graça, abraçando a todos sem nenhuma discriminação, reconhecendo em todos um valor intrínseco: Deus os ama e os quer salvar, portanto, devem ser amados e ajudados por nós. Somos os que choram, gente de compaixão ativa, que está onde o sofrimento acontece para diminuí-lo como for possível. Somos os mansos, gente que entende a autoridade a partir do serviço, e, então, pelo exemplo, aponta caminho para a sociedade, para a construção de uma comunidade solidária. Somos os que têm fome e sede de justiça, gente que não se esquiva de ser a voz dos que foram emudecidos pela injustiça em suas múltiplas formas. Somos misericordiosos, gente que não confunde o pecado com o pecador, reconhecendo a todo o ser humano o direito à dignidade, independente da gravidade de seu erro, aprimorando as instituições em favor do ser humano.


Somos os de coração puro, gente que sabe das possibilidades que a graça cria, que sabe que vale a pena investir no ser humano e na sociedade, porque a graça divina age eficazmente, fazendo com que o universo conspire a nosso favor; daí, estaríamos por detrás de todo ato de desenvolvimento transformador, de todo o investimento em saúde, educação, de toda a atividade que emancipe o ser humano. Somos os pacificadores, aqueles que resolvem problemas tendo em vista o estabelecimento do direito. Estamos prontos a sofrer por isso, porque foi o que vimos no Cristo, Jesus. Infelizmente, ainda que haja um grande número de cristãos engajados nessa aplicação de nossa luminosidade, essa tem sido uma grande omissão da igreja local, a começar pelo ensino dessa verdade, de modo que os cristãos, em não o sabendo, sequer são desafiados a vivê-lo. Os cristãos não têm sido informados de que são seres luminosos e de como essa luz ilumina. Muita gente está sofrendo por causa desse desconhecimento, entre os seguidores de Jesus, sobre a sua natureza no Cristo e a consequente manifestação da mesma. Essa luz tem de brilhar.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

É que você ainda não chegou em casa...


Ouvi uma história, anos atrás, sobre um casal de missionários que estava voltando da África para os Estados Unidos. Não tinham aposentadoria, sua saúde estava debilitada, sentiam-se derrotados, desanimados e apreensivos.
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Depois de muitos anos de serviço missionário, lá estavam eles, iniciando sua longa viagem de volta a bordo do mesmo navio em que estava o Presidente Teddy Roosevelt (presidente dos EUA de 1901-1909), retornando de uma temporada de caça na África. No momento do embarque, havia uma multidão de gente e uma banda tocando para a despedida do presidente, mas ninguém para se despedir dos missionários. O marido disse, então, à esposa: - "Não é estranho, querida? Aqui estamos nós, sacrificamos nossas vidas no serviço do Senhor, gastamos muitos anos neste lugar, perseveramos no meio de imensas adversidades, perdemos alguns dos nossos filhos e os enterramos aqui. Tudo tem sido tão difícil, mas ninguém realmente se importa com isto, não é? Veja só toda essa fanfarra quando o presidente volta de uma simples excursão de caça! Mas ninguém se importa se fizemos algo de valor para Deus ou não." - "Querido, você não deveria pensar assim", disse sua esposa.- "Não dá para pensar de outra forma. É tudo tão injusto."
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Durante toda a viagem, enquanto cruzavam o Atlântico, este sentimento crescia e fervia em sua mente. A amargura foi tomando conta da sua alma e ele disse à sua esposa: - "Aposto que quando chegarmos em Nova Iorque vai haver outra banda para receber o presidente, e ninguém esperando por nós. Estaremos sozinhos".- E foi assim que aconteceu. Quando o navio atracou no porto de Nova Iorque, uma banda tocava as canções preferidas de Teddy Roosevelt, e todas as autoridades da cidade estavam lá para recepcioná-lo. Enquanto isto, o casal de missionários desembarcou completamente despercebido e foi alugar um apartamento dilapidado no Setor Leste de Nova York.
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Completamente arrasado, o homem disse à esposa: - "Não é justo, não é justo mesmo! Aqui estamos nós, sem dinheiro, sem saber quem é que vai cuidar de nós ou para onde vamos. Deus nos prometeu grandes coisas, mas nada aconteceu. Entregamos a ele tudo que tínhamos, e o que fez por nós? Agora, veja o que acontece quando o presidente sai numa excursão de caça! Isso não é justo!" - "Querido", a esposa respondeu, "eu sei que não é justo, mas esta não é a atitude certa. Não deve pensar assim.
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Por que você não vai até o quarto, converse com o Senhor sobre tudo isso e veja o que ele tem a dizer?".
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E ele foi. Entrou no quarto e ajoelhou-se à beira da cama, sozinho. Ficou lá por um bom tempo e, quando saiu, seu rosto brilhava. Sua esposa percebeu que algo tinha acontecido. Então ela perguntou: - "O que houve?". E ele respondeu: - "Eu me ajoelhei e derramei toda essa história diante do Senhor.
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Contei para ele que havia achado tudo tão injusto, especialmente que ao chegarmos em casa, o presidente ganhou aquela tremenda recepção, enquanto ninguém se importou conosco. Eu disse também que ele não estava nos tratando direito.
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Mas sabe o que o Senhor me disse? Foi como se tivesse se inclinado e colocado sua mão no meu ombro, para me dizer: - "Mas você ainda não chegou em casa!"
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Do livro "TALKING TO MY FATHER" (Conversando com meu Pai), de Ray Stedman&Co. 1997.